Este filme é sobre memória
Se fôssemos encarar o “Breu” hoje de forma personificada, ele seria um amigo próximo, conselheiro, que cresceu e amadureceu junto com a gente. Um amigo que vai e vem. Perde-se o contato, cria-se certo distanciamento, mas que em algum momento retorna, se reconecta, para continuar ao nosso lado no meio da nossa trajetória pela sétima arte.
Nossa relação com o filme tem sido assim. Após realizarmos o curta-metragem, uma fração do universo complexo que criamos — cheio de sobras, de personagens que morreram, outros que se transformaram —, creio que ficou uma sensação de incompletude. Um breve descanso, mesmo que as obrigações de pós-produção estivessem acontecendo. Se voltarmos alguns anos, aliás, talvez esse sentimento de “pendência” se intensifique, como quando fomos semifinalistas com o roteiro deste mesmo curta-metragem no Fade To Black Festival.
Talvez a gente não sabia desse sentimento de falta na época. Talvez outros processos do curta-metragem tenham dado a latência necessária para gente saber que não tinha acabado. E vejam bem, particularmente sou um grande defensor da superação do cinema. Da ideia que para o próximo projeto acontecer, o anterior tenha que ficar para trás — para bem ou para mal. Decerto existem todas as responsabilidades de distribuição que o filme exige após finalizado, que não devem ser ignoradas, sobretudo em um contexto de cinema independente, onde representam um desafio ainda maior. Mas a ideia de deixar o seu último “sucesso ou fracasso” para trás, sempre me foi bem cara.
Mas daí surgiu o edital de desenvolvimento de longa-metragem, do fomento ao audiovisual da cidade de Contagem e aquele amigo, que já fazia tempo que não acenava contato, retornou. E eu o João agarramos a oportunidade de nos juntarmos a este velho conhecido e mais uma vez contar a sua história. Ou ir além, na tentativa de observar novas abordagens pro universo que a gente criou.
Bom, meia década se passou desde o primeiro domingo à tarde quando eu e João sentamos para discutir o Breu pela primeira vez. Muita coisa aconteceu no meio-tempo. Nós lançamos outros curta-metragens, participamos de projetos alheios e hoje nos encontramos em um outro momento da nossa trajetória. Mas até então, estávamos falando de curta-metragem, não é mesmo? Embora o João tivesse concluído recentemente um roteiro de longa-metragem que ganhou destaque em festivais, isso, para mim, aliás, pra nós dois, seria um desafio a mais na nossa trajetória — ainda mais revendo um antigo amigo.
Então… como começar? Revendo as toneladas de papéis, documentos escritos anos atrás, claro. Mas e depois? Bom, depois precisamos correr atrás de gente para nos ajudar nessa empreitada. E? E é claro que nós vamos bater a cara, rever nossa própria trajetória, aprender a filtrar a história, ajudado pelas pessoas que traremos para essa empreitada, obviamente, né? É curioso como essas constatações foram surgindo de forma orgânica. Nós dois, enquanto roteiristas, tentamos reunir a maturidade necessária para entender de onde essa história ressurgirá. É certo dizer que nossos mais alguns tantos anos apostando no cinema independente ajudaram nesse processo? Certamente! Mas eu não acho que se trata exatamente disso, convenhamos.
Vou lhes contar um segredo: o que trouxe eu e João até aqui foi uma espécie de desejo de redenção. Da redenção de viver de uma paixão. De fato, viver de cinema. De dar uma completude a uma história que tem azucrinado nossas mentes há vários anos. De dar voz a personagens antigos e promover a criação de novos. De contar uma história sobre o Brasil atual e o Brasil antigo — que muitas vezes se embaralha, inclusive.
Finalmente foi dado o primeiro passo. Do calhamaço da trívia dos mais variados “Breus”, nós chegamos a um que consideramos conciso. Priorizamos falar sobre as pessoas. Sobre a relação dos personagens. Sobre paternidade, masculinidade, colonialismo, boas e más memórias. Recolhemos nossa trajetória em formato de linhas ajustadas em .docx e seguimos para a escrita de uma argumento definitivo. Um argumento de longa-metragem.
A trajetória para estruturação do argumento para este filme tem sido um grande processo de desapego, sem dúvidas. O que dá pra notar ao longo da nossa trajetória é que, com o tempo, vai se entendendo cada vez mais essa necessidade. Acima de tudo, a importância de se perguntar inúmeras vezes sobre “o que exatamente essa história se trata”. A resposta, naturalmente, nunca é simples. As camadas são importantes. Os personagens que apoiam o nosso núcleo familiar são importantes. Mas sobre o quê era essa história mesmo?
Para essa parte do processo, fomos felizes com o aceite do convite para Higor Gomes — cineasta mineiro, membro da produtora Ponta de Anzol — que entrou no projeto como orientador de escrita de roteiro. Grande inspiração que têm nos fornecido, além de carinho e notória generosidade, um caminho possível para o longa-metragem: “Breu”.
Yago Guedes.