Breu - Diário de Bordo

Mostre-me sua lixeira

Escrevi o meu primeiro “roteiro” aos 14 anos num bloco de notas onde não formatei uma só linha nem quebrei um parágrafo sequer. Os diálogos eram escritos assim: fulano, dois pontos, fala de fulano, ponto. Se alguém chegasse à porta e batesse o olho no meu monitor não conseguiria supor do que se tratava, mas era um roteiro. Afirmo isto porque, já naquela época, meu desejo era que aquele “ponto tê xis tê” virasse imagens numa tela de cinema e não sentenças num livro de papel.

“Amores Expressos” era uma trama desconjuntada sobre um francês fugindo da invasão nazista em meio à Segunda Guerra, carregando um bebê até Portugal. Nesta época, eu era fascinado por filmes do gênero e escrevia histórias inspiradas nos longa-metragens hollywoodianos que assistia.

Certo dia, carente de aprovação, colei aquelas frases jogadas num documento de word, corrigi as palavras grifadas em vermelho — eram tantas que quase desisti —, e imprimi algo em torno de 20 páginas que orgulhosamente grampeei e entreguei nas mãos do meu professor de teatro dizendo que havia escrito uma história muito boa mesmo, ele mal podia esperar pra ver.

Mais de um ano depois, eis que ele me devolve o calhamaço cheio de rasuras — o corretor ortográfico do word em 2013 não era nenhum chat gpt afinal — me dizendo algo como “Parabéns! É um grande enlatado norte-americano. Parece propaganda." O que me deixou bem triste. Primeiro porque eu julgava a história muito boa e segundo porque passado tanto tempo eu havia perdido as esperanças que algum dia ele lesse e agora que tinha lido, havia detestado. Foi então que ele emendou:

Professor de teatro: Tenho reparado e acho que você leva jeito pra cinema, sabia? Já pensou em ser roteirista?

E o resto, como dizem, é história.

Do dia em que entreguei o calhamaço ao meu professor até o segundo semestre de 2016, quando ingressei na faculdade de cinema na PUC, muitas outras ideias vieram. Uma delas era finalmente um romance que, aprendido meu erro, escrevi no word e publiquei por algum tempo no wattpad, uma plataforma de fanfic. Nada de filme de guerra dessa vez; agora o projeto era uma mistura esquisita de Harry Potter com Jogos Vorazes que deveria ter umas mil páginas porque assim eram os melhores livros de fantasia na minha jovem convicção.

Esta empreitada em particular foi importante porque através dela descobri que a intuição pode até render bons insights, mas sem o suporte de um bom método, ela sozinha é incapaz de produzir histórias inteiras e coesas.

Conforme eu publicava semana a semana um capítulo inédito, sentia um ímpeto cada vez maior de reescrever os capítulos anteriores na medida que aprendia algo novo, de modo que o progresso foi se tornando cada vez mais lento.

Para além da gramática, conforme meu universo crescia, mais eu me embananava. Minhas regras mágicas impediam que eu desse este ou aquele passo e meus personagens me traiam conforme eu precisava que eles tomassem essa ou aquela atitude. Tudo parecia apressado, repentino, mal feito. E sempre que eu voltava e reescrevia, uma outra ótima ideia surgia e o que antes estava decidido, bom, agora poderia ser descartado para dar lugar a esta que era de fato a verdadeira história que eu sempre quis contar.

Quando passei da página duzentos, um ou dois anos depois, as alterações necessárias para atingir um grau mínimo de coesão eram tantas que simplesmente travei. Eu havia erguido um labirinto imenso e me perdido nele. Eu jamais terminaria aquela história.

Muitos anos depois, já formado em cinema e audiovisual, num curso voltado para o mercado editorial, ouvi de um grande editor brasileiro que ele costumava encaminhar novos autores para cursos de roteiro a fim de dominarem a estrutura. Neste momento compreendi que, para além de documentos de mercado, os intermináveis formatos de texto que eu havia conhecido na faculdade eram, antes de mais nada, poderosas ferramentas de criação.

Em Como Contar um Conto, transcrição de algumas das muitas aulas de roteiro que Gabriel García Márquez ministrou na Escuela Internacional de Cine y Television de Cuba, Gabo afirma que “uma história não existe enquanto não puder ser contada em uma página”. Esta premissa, a redução, está no cerne de como o mercado audiovisual (e literário, aparentemente) organiza a estrutura de suas histórias. Parte-se do menor para o maior.

Você deve ser capaz de contar sua história em uma página, um parágrafo ou até mesmo uma linha. Deve ser capaz de subir num palco, agarrar um microfone e apresentá-la em 10 minutos. De acordo com Robert Mckee em seu livro Story, “se uma história não funciona em dez minutos, como vai funcionar em 110? Não vai ficar melhor ao ficar maior. Tudo que dá errado em uma narração de dez minutos fica dez vezes pior na tela”.

E aí está um outro bom motivo para que você erga a cerca antes de agrupar as vacas (Como Contar um Conto, 1995, Casa Jorge Editorial, Gabriel García Márquez). Somente enxergando toda a estrutura da sua narrativa, do começo ao fim — ainda que você não saiba como cada coisa acontece — será possível determinar se há de fato uma história a ser contada.

Neste mesmo livro, Gabo fala da importância de se desfazer daquelas ideias que, quando analisadas suas estruturas ósseas, se mostram frágeis e insólitas.

“É preciso aprender a jogar fora. A gente conhece um bom escritor não tanto pelo que ele publica, mas pelo que joga no lixo. Os outros não ficam sabendo, mas o escritor sim: ele sabe o que joga fora, o que vai deixando de lado e o que vai aproveitando. Se o escritor se desfaz do que está escrevendo, está no bom caminho”

Como adiantei, no audiovisual a redução é vastamente instrumentalizada e conta com uma série de ferramentas que visam equipar a produção com toda sorte de formatos para facilitar a comunicação e a venda da história. Abaixo, introduzo alguns destes conceitos, linkando postes do Tertúlia Narrativa — um ótimo blog voltado para roteiristas — onde estes elementos estão destrinchados com mais profundidade.

A logline, é a sua trama resumida em uma frase de forma sucinta e atrativa. Ela não precisa (e nem consegue) dar conta de TODA a sua história, mas deve carregar a essência dela.

Ainda usando os registros das aulas de Gabo como exemplo, na página 50, o autor narra o seguinte:

O livro que acabo de terminar, O General em seu Labirinto, sobre Simón Bolívar está tirado de uma frase: Após uma longa e penosa viagem pelo rio Magdalena, morreu em Santa Marta abandonado por seus amigos. Escrevi duzentas e oitenta páginas ao redor desta frase [...].

O beat sheet é um documento de trabalho do roteirista. A “página de batidas”, em tradução livre, é na verdade um agrupamento dos beats da sua história. Por beat, entenda-se unidade narrativa. Cada acontecimento, cada mudança, que move sua história adiante é um beat. De acordo com Robert Mckee, em seu livro Story, "Beat é uma mudança de comportamento em ação/reação. Beat por beat, essas mudanças de comportamento mudam a forma da cena."

O argumento é sua história escrita em prosa, ainda sem cabeçalhos ou diálogos, e deve inspirar no leitor as emoções e reviravoltas da sua trama. Este documento é, provavelmente, seu principal aliado de mercado. Nenhum executivo ou assistente que seja lerá o seu roteiro. Com sorte, ele ou ela, irá folhear seu argumento julgando extensas suas cinco ou dez páginas, então se esforce para fisgá-lo logo na primeira.

A escaleta, normalmente, sucede o argumento. Ao contrário deste que visa narrar a história em prosa sem se preocupar com a norma gramatical do master scenes, a escaleta desenha a estrutura já pensando nas sequências e nas cenas. Este documento é um grande aliado na hora de observar o esqueleto de sua história e analisar o que está sobrando ou faltando. Aqui finalmente devemos nos deter em “COMO” a nossa história acontece. Há muitas formas de se fazer uma escaleta, o método varia de roteirista para roteirista, caso tenha interesse, sugiro fortemente que você veja os exemplos no poste do Tertúlia linkado no começo deste parágrafo.

Para além destas que citei, existem muitas outras ferramentas que podem ser aliadas na hora de cercar suas vacas e delimitar a estrutura de sua história. O importante é saber quando usar cada uma delas.

Uma boa escaleta, por exemplo, é como uma rota de viagem que aponta o caminho e economiza tempo impedindo que você tenha que improvisar no meio da estrada. Talvez se em meus tempos de whattpad eu já conhecesse o seu poder, minha história hoje estivesse finalizada. Ou melhor, talvez eu nunca tivesse escrito, teria percebido logo de partida, analisando sua estrutura, que seu esqueleto era insólito.

De todo modo, acho importante ressaltar que não há forma errada de escrever, errado é ter histórias pulsando no peito e não botá-las para fora. Feito sempre será melhor que perfeito. Mas se fazer disso uma carreira for sua ambição, bom, aí é preciso mais do que apenas escrever.

A propósito, esta é a storyline do Breu atualmente, passados cinco anos desde sua primeira concepção:

“Dez anos após abandonar o filho num seminário, um casal de lavradores é obrigado a confrontar seu passado quando o rapaz volta para casa trazendo morte e seca em seu encalço”

#joão paulo