Breu - Diário de Bordo

nossa casa

“Ele quer que Daisy veja a casa” explicou Jordan Baker.

Em O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald — uma das minhas escassas leituras de 2024 — Jay Gatsby é um bilionário que ninguém sabe de onde veio ou como enriqueceu. Ainda assim, aos sábados, sua imponente mansão em Long Island, Nova Iorque, está abarrotada de membros da high society que se acabam em festas apoteóticas regadas pelo alcool ilegal dos Estados Unidos do começo do século 20.

Todo fim de semana, Jay Gatsby abre as portas de sua casa trajando a persona de simpático anfitrião com um intenso e singular objetivo: atrair Daisy Buchanan, sua grande paixão. Egresso das classes baixas, Gatsby fez dinheiro de formas escusas para igualar seu status social ao da mulher que amava, herdeira de sobrenome e fortuna.

Afastados há muito, agora ele procura meios de se reapresentar, de mostrar em que se transformou. Para tal, ergue uma suntuosa mansão do outro lado da bahia em que Daisy reside. Como se a casa pudesse deflagrar a sua alma.

img 1 + 2 Locação do curta-metragem Breu. Casa dos meus avós, onde minha mãe cresceu.

No fim da estreita estrada de terra José Guilherme, há uma casinha com três quartos, sala, copa, cozinha e banheiro. Na década passada, ali viviam meus avós, minha mãe, meus tios e tias. Em 2018, quando um primo marceneiro empurra a enferrujada porta do alpendre e começa a carregar seu maquinário de marcenaria para dentro, já faziam quatro anos que a casa estava vazia e pelo menos vinte que uma pequena vila se ergueu ao redor, composta por moradias construídas pela sóbole de meus avós.

Imagem3 Locação do curta antes das intervenções, quando transformada em marcenaria.

Perdida num lugarejo que já foi considerado Ribeirão das Neves e hoje é demarcado como parte do município de Vespasiano, a casa foi “ver” luz pela primeira vez na década de 70 por meio dos esforços conjuntos de alguns tios em levantar postes e puxar cabos. História que ouvi inúmeras vezes da boca de minha mãe.

Mais de quarenta anos depois, quando proponho ao Yago o desenvolvimento de uma história em que a luz chega à uma casinha de lavradores perdida em lugar nenhum, é claro que era neste lugarejo e nesta casinha em que eu estava pensando.

A princípio, o Breu seria um longa-metragem sobre histeria coletiva. Próximos de concluir a graduação, tínhamos essa noção muito clara de que para além dos portões da universidade uma diária de luzes, lentes, câmeras e microfones estava fora do alcance das nossas carteiras vazias. O TCC, esta bala de prata, era duma forma um tanto romantizada nossa última chance de erguer uma casinha vistosa, para acenar ao outro lado da bahia, onde o fechado e egocêntrico mercado de cinema brasileiro estava.

Como Jay, queríamos construir uma casa altiva e sólida que de algum modo fosse capaz de traduzir quem éramos. Com este ímpeto, levantamos em um só mês uma suposta escaleta de 42 páginas, recheada de ótimas ideias e muitas convicções. Este documento — que convenhamos, era mais conto que escaleta — foi apresentado para nosso grupo e todos concordamos que havia ali uma história virtuosa para ser contada. O próximo passo era calcular o escopo do projeto.

Aquela altura já havíamos realizado alguns curtas na graduação e tínhamos alguma noção de toda logística envolvida na produção de um set. E foi aí, quando os cálculos matemáticos entraram que começamos a suspeitar que um longa filmado em seis meses, sem nenhum dinheiro, com equipamentos de entrada e profissionais não remunerados não era lá a melhor ideia que já tivemos.

Uma vez que isto foi constatado, entramos numa espiral de negação. Na verdade, o filme era possível, mas só se a trama fosse simplificada, se este ou aquele personagem fossem cortados, se tal arco fosse reduzido, se usássemos as limitações a nosso favor e se, finalmente, desconfigurasse nosso “filme virtuoso” até que ele se tornasse outro completamente diferente, bom daí seria possível.

Como o tempo de produção numa graduação de cinema é absolutamente particular — normalmente se produz um curta por semestre entre esta e aquela prova, entre um texto para amanhã e um trabalho pra ontem —, este estado de negação não durou muito. Logo chegamos a conclusão amarga de que era mais seguro e sensato desistir de rodar o longa e selecionar um pedaço da nossa ousada trama para gravar um curta-metragem.

O curta “simplificado” seria um filme de disputa de classes. O roteiro tinha lá suas vinte e tantas páginas, uma quase dezena de personagens e uma infinidade de locações: uma capelinha em Sabará, um casarão em Mário Campos, um milharal até então desconhecido e claro, a casinha de meus avós em Vespasiano.

Eu almoçava na cozinha de um prédio comercial na Savassi onde fazia estágio quando, através de um vídeo do canal “Meteoro Brasil”, tomei conhecimento de Wuhan, uma cidade na China onde uma doença desconhecida circulava no ar. Era final janeiro de 2020 e em três meses começaríamos a rodar.

Em 14 de março daquele ano tínhamos um elenco formado, uma equipe de quase trinta voluntários e cinco mil reais arrecadados num financiamento coletivo. Naquela tarde de sábado, nós pintávamos as paredes da antiga casa dos meus avós — meu primo havia se mudado para Portugal — quando alguém leu no celular que o país entraria numa quarentena a partir de segunda-feira. O que veio depois todos nós sabemos; a produção do filme foi suspensa, as aulas da universidade passaram para o regime remoto e o mundo mergulhou na maior pandemia viral de sua história recente desde a gripe espanhola de 1918.

Somente em 2022 — já na segunda dose da aplicação da vacina —, foi que começamos a retomar o projeto. Àquela altura estávamos formados há mais de um ano, havíamos fundado um coletivo audiovisual independente e muita coisa havia mudado no mundo e em nós. Com a pandemia ainda em estágio de desaceleração, retomamos o roteiro do curta na missão de simplificá-lo para caber no escopo das produções recentes, os chamados filmes pandêmicos. A equipe e o elenco foram cortados pela metade, o roteiro reescrito e as muitas locações concentradas num só ambiente: a abandonada casinha de meus avós.

No fim daquele ano finalmente filmamos o curta de pandemia que guardava poucas semelhanças com o curta universitário que, por sua vez, quase nada tinha a ver com aquela primeira escaleta que amávamos tanto em 2019.

De lá pra cá se passaram dois anos. Da última vez que vi a casinha de meus avós, hoje ocupada por outro primo, sua companheira e seus dois filhos, me assustei ao me dar conta que caiam mangas maduras sobre o piso da velha cozinha. Marcada por trincas e rachaduras, ela havia sido sentenciada a demolição.

Imagem4 Espaço onde ficava a antiga cozinha da casa, hoje com uma só parede de pé.

Durante os quatro anos do mandato de Jair Messias Bolsonaro na presidência do Brasil os impostos pagos pelo setor audiovisual para reinvestimento na indústria foram represados e o ministério da cultura desmantelado. Somente em 2022, com a saída da extrema direita do poder executivo e a execução da Lei Paulo Gustavo é que o setor voltou a encontrar investimento público. Foi neste contexto, com os editais culturais pulsando outra vez, que Yago e eu vimos a oportunidade de voltar a trabalhar naquele sonho antigo impresso numa “escaleta” de 42 páginas que escondia uma história virtuosa adiada há cinco anos.

Entusiasmados, nos re-conectamos com aquele vasto universo, formalizamos um projeto e estruturamos um plano de execução. Aprovados, era hora de empurrar a porta, abrir as janelas e revisitar a nossa casa. Esta, que como aquela no fim da estreita estrada de terra José Guilherme, tinha se transformado tanto com o passar dos anos. Foi preciso garimpar entre diversas contas do google, documentos avulsos e pastas do drive, até finalmente reencontrar a escaleta. Após uma releitura individual, marcamos uma reunião online para discuti-la. Meia década depois estávamos nós, dois cursores coloridos nas linhas de um mesmo parágrafo, revisitando aquelas páginas outra vez.

“Bicho, é ruim” disse eu com microfone aberto.
“Pois é mano, também não curti” respondeu Yago.

A nossa saudosa escaleta não era como lembrávamos. Estava recheada de diálogos afetados, tramas que partiam do nada para lugar nenhum entre diversos outros problemas. Senti um aperto no peito, como aquele que me abateu no momento em que vi a cozinha nua com uma só parede de pé. A nossa memória tinha nos traído?

Tenho para mim as histórias como Jay Gatsby tinha para si as casas. Acredito que nelas vão estar sempre expostas parte maiores ou menores de seus autores. Também por isto, e por crer que não perambulam por aí almas vazias, Yago e eu sabemos que há nestas 42 páginas um quê de hipnose, uma espécie de fagulha que mesmo passados tantos anos, não se apagou. Nossa tarefa agora é encontrá-la. É preciso deixar chover mangas no piso da nossa cozinha.

João Paulo Freitas.

#joão paulo