Breu - Diário de Bordo

Uma trilogia sobre escrever a quatro mãos

“Preciso trocar uma ideia com você mais tarde” — o João me disse no final de uma aula, nos nossos tempos da faculdade de Cinema, lá em 2018. À noite, sentado em algum bar no bairro Coração Eucarístico, o João me narrou um insight que tivera um dia desses, voltando pra casa de ônibus. Ele tinha uma premissa e um nome, “Jaíza”, o da protagonista e do filme que lhe viera à mente.

Não só o João teve uma inspiração repentina como tinha preparado um convite: me chamar para co-escrever com ele essa história. Ouvi a premissa, achei desafiadora à época e lembro de ter ficado um pouco surpreso com o convite. Surpreso, mas bastante interessado. Não tinha passado pela mente, até então, de forma tão latente, a vontade de escrever um roteiro em dupla. Lembro de ter voltado pra casa pensativo, no metrô e depois no ônibus que me traziam de volta — eu e João dividimos a característica de pensar roteiros nos transportes públicos.

Não foi difícil aceitar o convite do João, pra falar a verdade. Surgia em mim um interesse genuíno em escrever com outra pessoa. Ainda mais com o João, com quem tive uma troca bem próxima desde o primeiro contato. Dividíamos não somente a inspiração dentro dos transportes públicos, mas também afinidades, trajetórias de vida. Mas para além do convite, ficou a grande dúvida de como iríamos encarar esse processo.

Nós dois não seguimos nenhuma cartilha de como escrever a dois. Não procuramos por exemplos de co-roteiristas. Uma das coisas que nos unia àquela altura, era nossa vontade mútua de sermos roteiristas. De forma meio autodidata, fomos atrás do que seria o nosso próprio processo. Contando apenas com os pontos da narrativa pré-estabelecidas naquela conversa de bar, nós decidimos escrever separadamente dois argumentos de roteiro. A ideia era criarmos dois enredos e nos guiar por duas possibilidades de histórias, com a promessa de encontrarmos novidades pelo caminho, e aí sim, unirmos para finalizar o roteiro.

Olhando em retrospecto, nós chegamos a pular algumas partes importantes do processo. O de separar, por exemplo, a história em beats, — ou fragmentos da história, com pontos de partidas pré-estabelecidos, como proposto pelo roteirista estadunidense Blake Snyder. Ou mesmo de “escaletar” o roteiro, separando-o por ações mais elaboradas, de forma a visualizarmos os pontos de viradas e ações importantes da história. Ao contrário de tudo isso, seguimos nosso instinto, acho que o suficiente à época e apresentamos duas histórias em formato de argumento cinematográfico. Para a nossa surpresa, as escritas tinham vários pontos em comum. Só depois, nós chegamos à conclusão de que era hora de separar igualmente as cenas entre nós dois e escrevermos separadamente, de forma a interligar os alicerces da história.

Em menos de quatro meses nós tínhamos escrito e realizado o filme “Jaíza”. Para o nosso deleite, o filme participou de quatro festivais à época. Eu, João e parte da equipe conheceríamos o Rio de Janeiro pela primeira vez, de forma solene: para estrear um filme no Curtacinema - Festival de Curtas do Rio de Janeiro.

Apesar de ainda estarmos tateando essa experiência, o nosso primeiro projeto escrevendo juntos foi revigorante. Nós dois seguimos produzindo dentro da faculdade, às vezes escrevendo separadamente, mas àquela altura parecia natural que voltássemos a escrever juntos. E foi aí que o “Breu” apareceu na nossa vida pela primeira vez. Logo após o Jaíza, no ano seguinte, prestes a começar os trabalhos para a Tese de Conclusão de Curso, eu e o João meio que sabíamos que era hora de lançar o “Breu” como nosso último projeto na faculdade. Com algumas mudanças, não muitas, escrevemos juntos um verdadeiro calhamaço de material do universo que queríamos apresentar. Ainda minerando o conhecimento teórico, nos atropelamos em processos, nomeamos documentos de forma precipitada, mas tudo com uma paixão genuína de construirmos um projeto juntos. O “Breu” começou como longa-metragem, flertou com o média-metragem e se estabeleceu como curta. A escrita durante a pandemia fez com que reduzíssemos a história inúmeras vezes, até chegar a uma que se passasse em apenas uma locação.

Mais uma vez fomos brindados, sendo semifinalistas no festival de roteiro Fade To Black com o “Breu”. Nossa trajetória juntos continuava dando frutos. Em 2020 finalmente gravamos o curta-metragem, pouco depois de nos formarmos, dando uma pausa em um processo de mais de quatro anos de maturação da história.

Em 2022, voltamos a escrever juntos. O “A Vida dos Pombos” tinha muito de nós no roteiro. A nossa trajetória de vida inspirou a representação de “Jardel” — um jovem preto, que cresceu na periferia, e que em um casa cheia, com um sobrinho para nascer, começa a ansiar por privacidade. O filme continua circulando e tem figurado em festivais pelo Brasil, tendo nos levado mais uma vez ao Rio de Janeiro, para exibir outro filme e vivenciar outras experiências.

Pois, quando no Rio novamente, descobrimos que, de fato, atravessar o mesmo rio duas vezes nos torna pessoas diferentes. Tínhamos sido contemplados no Edital em Contagem, pela Lei Paulo Gustavo, em dupla. Iríamos voltar a escrever o “Breu”, dessa vez como longa-metragem. Alguns anos a mais de trajetória somariam na nossa percepção sobre escrever juntos. Após um considerável caminho pelos sets de cinema, chegaríamos à conclusão de procurar por atalhos nessa caminhada — especialmente agora que se tratava do nosso primeiro longa-metragem escrevendo juntos. Falaremos disso no futuro, mas se podemos adiantar algo é que: dessa vez escolhemos lidar e hierarquizar documentos técnicos e auxiliares para a escrita, bem como contar com a supervisão de profissionais de escrita e de mercado.

#yago